Resumo

O traumatismo crânio encefálico (TCE) é qualquer lesão decorrente de um trauma externo, que tenha como consequência alterações anatômicas do crânio, como fratura ou laceração do couro cabeludo, bem como o comprometimento funcional das meninges, encéfalo ou seus vasos, resultando em alterações cerebrais, momentâneas ou permanentes, de natureza cognitiva ou funcional. Lesões traumáticas são a principal causa de morte de pessoas até os 44 anos, o que corresponde a 10% do total de óbitos do mundo. Entre 2008 e 2019 ocorreram, em média, no Brasil, 131.014,83 internações por traumatismo cranioencefálico ao ano, com incidência de 65,54 por 100 mil habitantes.

Estudos mostram que apesar do tamanho do impacto do TCE, evidências científicas fortes para embasar diretrizes e recomendações de tratamento ainda são escassas, com ensaios clínicos falhando em mostrar real eficácia de tratamento, apesar de resultados promissores com relação ao TCE, mas não a epilepsia pós-traumática (EPT).

A EPT é uma complicação neurológica que ocorre em até 20% dos pacientes, com o risco aumentando de acordo com a severidade do TCE, intervenção cirúrgica, intervalo de tempo desde o TCE. As crises convulsivas precoces podem ser causadas por efeitos agudos do trauma, como hemorragias e edema cerebral.

Considerando a morbidade associada a EPT, seu impacto na qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares, as consequências para a sociedade e para o sistema de saúde, bem como os custos associados ao seu tratamento, é fundamental avaliar, por meio de um ensaio clínico randomizado bem desenhado e bem conduzido, os benefícios e riscos de uma intervenção para preveni-la.

 


Introdução

O estudo, conduzido pelo Hospital Sírio-Libanês desde o triênio 2018-2020, propõe o uso de biperideno logo após o TCE com objetivo de prevenir a EPT e ainda, fazer acompanhamento desses pacientes ao longo de dois anos. O objetivo é avaliar os efeitos clínicos, a segurança e a custo-efetividade do uso de biperideno para prevenção de EPT em pacientes com TCE e hemorragia intraparenquimatosa confirmada em hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de um ensaio clínico randomizado.

Será aplicada a medicação nas primeiras 12 horas da admissão, seguido por 10 dias consecutivos de tratamento, além de acompanhamento em: 1, 3, 6, 9, 12,18 e 24 meses. 

Justificativa e relevância do projeto para o SUS

A epilepsia pós-traumática (EPT) é uma complicação neurológica que ocorre em até 20% dos pacientes, com o risco aumentando de acordo com a severidade do TCE. Até o momento, não há terapêuticas eficientes a fim de prevenir e/ou reduzir a probabilidade de desenvolvimento de EPT. As causas que ligam o TCE à EPT ainda não foram totalmente elucidadas e ainda não é possível evitar o processo da epileptogênese.  O estudo propõe o uso de biperideno logo após o TCE com objetivo de prevenir a EPT. 

Comprovadas a efetividade e a segurança da intervenção proposta no estudo, a avaliação de sua custo-efetividade torna-se fundamental para sua implementação na prática clínica e para sua incorporação no âmbito do SUS.  

 


Métodos

O estudo será duplo-cego, o que implica no uso de métodos apropriados para manter todos os envolvidos no estudo (participantes, equipe responsável pela administração da intervenção, avaliadores dos desfechos e estatísticos) sem conhecimento do grupo de alocação de cada participante.  Pacientes atendidos no pronto-socorro dos centros participantes com TCE agudo moderado a grave e com contusão e/ou hemorragia intraparenquimatosa (diagnosticados por CT ou RM de crânio), de 18 a 65, ambos os sexos, escala de coma de Glasgow maior de 6 anos e sem os critérios de exclusão serão randomizados para dentro de um período de 12 horas após o TCE receber ou placebo ou biperideno. 

Os participantes do grupo biperideno receberão a dose de 5 mg de biperideno, por via intravenosa, a cada 6 horas, durante 10 dias consecutivos. Os participantes do grupo placebo receberão soro fisiológico 0,9%, via intravenosa, repetido a cada 6 horas durante 10 dias consecutivos. O biperideno e o placebo terão o mesmo aspecto físico (cor, odor, forma) e serão embalados em frascos idênticos, assim como serão os frascos de soro fisiológico utilizados para diluição. Os participantes serão randomizados por uma central de randomização, que será o centro coordenador (Sírio-Libanês), para receber uma das duas intervenções: biperideno ou placebo. A randomização será realizada por meio de um programa online de randomização (www.random.org ou www.randomizer.org), com geração de uma tabela de números randômicos. 

Cada número desta tabela de randomização corresponderá a uma das duas intervenções. A tabela de randomização será mantida em sigilo completo pela central de randomização. O registro desta medicação será somente acessado pela equipe de métodos do centro coordenador da pesquisa (Sírio-Libanês), os quais não terão acesso aos participantes do estudo. O tratamento convencional de suporte para manejo do TCE recebido pelos participantes seguirá o protocolo do hospital participante. Após a fase aguda, os participantes serão avaliados em 1, 3, 6, 9, 12, e 18 meses após a inclusão no estudo.

 


Equipe


Indicadores

41
Quantidade de profissionais
envolvidos em pesquisa

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